Fomos um dia à Itabira, cidadezinha natal do grande poeta Drummond.
Não por prazer, nem por quizília, fomos a trabalho.
Meio a contragosto...
Não por descobrir o que o mineiro tem, mas para uma pesquisa social e antropológica das seqüelas que o extrativismo dos minérios, fez e faz com a vida dos mineiros.
Rodavámos há horas, creio que em círculo, pois todas as placas só indicavam Rio de Janeiro e Vitória. Caminhos do Mar.
Mineiro pra quem conhece tem mania de mar.
Parece um mar de tão azul, azul da cor do mar, TV Verdes Mares, mar de verde, mar de morros.
Perdidos nesse mar, descobrimos o verdadeiro significado da expressão nos “confins do Judas”.
O aeroporto de Confins, havia ficado para trás há muito, quando avistamos um táxi estacionado numa paradinha de beira de estrada.
O motorista parecia tão perdido quanto nós, tabaréus urbanos, mas o carro tinha uma direção.
Poderia nos ajudar, senhor ? Temos de ir à Itabira e não conseguimos achar a entrada do Campolino Restaurante. Tá pertinho moça....
- Outra mania de mineiro- tudo pertin...Daí os incautos acabarem nonada...!
Campolino? Sim, senhora. É uma parada às direitas, com uma horta no fundo.
De longe vocês vão ver o mar de verde.
Na frente tem um mar de queijo prá vender....
Passei a imaginar um mar de queijos, cheirosos....saborosos.....bem acompanhados de uma média de café pilado, sabor de roça, fogão à lenha. Que fome!
A abençoada logística nos obrigava a prosseguir sem almoço.
Preferimos que nos leve, se não se incomodar. Quanto custa a corrida até lá?
Nesses locais os táxis não andam com o contador ligado, em geral, possuem uma tabela que é ajustada com um bom papo. O preço depende da conversa...
Incomodar não incomoda, mas é que não precisa, vocês estão de carro, é só seguir em frente. Estão no caminho certo. Tem segredo não...
Por favor senhor, implorei, sentindo o cadafalso abrindo-se aos nossos pés, estamos perdidos e temos horário marcado em Itabira.
Já erramos o caminho várias vezes!
Mas moça..., insistiu, não posso acertar preço sem passageiro. Não consigo!
Era muita honestidade ou desconfiança para um dia só.
Por isso não!!!....Pulei prá dentro do carro, banco da frente, passei o cinto de segurança, aspirei firme o aroma da comida mineira, que pairava pelo ar - do torresmo, do feijão tropeiro, arroz com queijo branco derretido...
Vamos lá, temos de chegar antes das 15 horas.
Como é o seu nome mesmo? Sei não.
É Zinaldo, sim senhora.
É muita curva, estrada perigosa sem acostamento, muito caminhão areieiro, sei não...antes das três, sei não moça...
Vamos Seu Zinaldo, pisa que dá, disse confiante.
Atrás de nós meus companheiros de trabalho, no carro alugado.
Quando tento conversar ao celular, prestativo, observa...
Olha a placa das direita!
Passado um metro da placa de cobertura, a senhora não fala mais com ninguém.
Por isso não compro um celular. Não tem serventia.
Nessas banda, tem não.
Senti-me um idiota com um high tech na mão.
Fala a verdade, moça? Num dá vontade de jogar fora um trem desses?
Se dá...
Curva após outra, ele vai se soltando.
Eu, nauseada, começo a ver um mar de morro no horizonte!
Queijo bom, mas bom mesmo, é o da Serra da Canastra, meia cura, feito de leite fresco, (proibido por lei). Um queijo com o pé na marginália. Adoro isso!
Queijo fora da lei. Só em Minas!!!
O produto típico mais importante daquela região, é artesanal e feito de leite cru. Produzido há mais de duzentos anos, ele é primo distante do queijo da Serra da Estrela, de Portugal, trazido pelos imigrantes da época do Ciclo do Ouro.
O clima, a altitude, os pastos nativos e as águas da Canastra dão a esse queijo um sabor único: forte, meio picante, denso e encorpado.
A senhora pode levar, pra onde quiser que ele não estraga, é curado no sal grosso. Na medida, que vai envelhecendo vai ficando mais rijo, até criar uma casca.
Campolino passandooooo, anuncia, feliz!
Cheiro de comida virando o estomâgo....lá trás, um mar de verde...
Eles tem uma “casinha de queijo”, onde preparam a massa do Canastra.
Taxista é uma enciclopédia em cima de quatro eixos.
Avistamos a pedrona. Lá esta o morro careca....Careca Seu Zinaldo?
Em cima de minério de ferro não cresce nada, dona paulista.
É a zona da “canga” – uma região onde o minério de ferro está tão rente à superfície que a vegetação não consegue crescer de forma normal.
O morro careca não foi explorado, pois o teor de ferro ali é muito baixo, não dá “liga” para a venda. Chinês, disse ele, referindo-se aos maiores compradores do produto, exige ferro do bom.
Carlos Drummond era ferro de boa liga, comentei pra eu mesma.
Carlos Drummond era ferro de boa liga, comentei pra eu mesma.
Confidência do itabirano
Alguns anos vivi
Principalmente
Por
Noventa por cento de ferro nas calças.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
Era. Seu Carlos era bom em tudo, entrando na rotatória de acesso à Itabira. Proseava, versava e era bom contador de causos também.
Ele ficou muito triste quando foram arrancando os bocados da pedra.
Itabira foi ficando vermelha de pó de ferro, queria brigar e brigou com a Companhia que fazia a extração do minério.
A visão que se tem da “pedra que brilha” ou Itabira, é assustadora.
A impressão de que um meteoro caiu ou uma bomba decepou a cabeça do morro...
O antigo pico do Cauê, após todo o extrativismo do minério que o compunha
“ ali, mundo não se assemelha nem à natureza nem à cultura, mas a uma terceira coisa entre os dois, uma espécie de grande alucinação, uma monstruosidade geológica, uma dissonância planetária, com sua quantidade astronômica de minério, um volume capaz de “alimentar quinhentos mundos durante quinhentos anos” C. Drumonnd
De todos os ângulos alcançados pelas vistas embotadas de pó e cansaço se avistavam as crateras. Dentro delas, pequeninos "pontos" enchiam os vagões de minério.
Os garotos estagários, objeto de nossa pesquisa.
Pára esse carro, seu Zenildo.
Zinaldo, dona paulista. E para também de me chamar de dona, não sou dona de nada, nem de ninguém! Sim, senhora. Senhora de quê ? de engenho? dona de escravos? não sou senhora nem do meu nariz....ora essa! pare com essa subserviência!
Em dois segundos, deduzi a razão do aumento dos índices de alcoolismo e violência entre os garotos.
O que caiu aqui? O meteoro de Bendengó? Vários mísseis exocet?
As pessoas fazem vocês de tolos e todos abanam o rabinho, exploram sua cidade, suas crianças. Abrem crateras na sua cidade, e vocês o que fazem?
Indignada, fleumatizada com meu discurso socialês, nem vi quando a Helen chegou-se, sarcástica...
Calma Dona Ivone, ele não tem culpa de nada!
Não tenho mesmo, dizia o perplexo taxista. Não nasci, nem moro aqui. Moro em Itabirito, lá o rombo é grande também!
As "crianças" dona, são já grandinhos, muitos deles casados, precisam de emprego. Este é o único que registra a carteira. E o morro do Cauê .....bom dona....já faz tempinho que está esburacado,....muito antes de seu Carlos morrer... muito antes dele ir morar em Copacabana e ficar sentadin naquele banquin ...mas sabe que acho dona ?
Uma judiera danada o que fizeram com seu Carlos lá no Rio... Custava botar o homem voltado paraquele mundão de água? Não!...
....pois num é que botaram o coitadin de costas pru mar ...Judiera!
Assim, sem querer, descobri qual o mote para um dos mais conhecidos poemas do Mestre:
No meio do caminho tinha
uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra no meio do caminho, tinha uma pedra ...







OBA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirJá tem link no Atalhos!!!
Quero ler mais, mais, mais
beijo!!!
Obrigadissímo vc é primeira a postar......mil bjs pela atenção!!!
ResponderExcluirOba, tudo bom? Adorei o post e adorei o segundo vídeo. O primeiro eu achei no youtube, mas o segundo não... Está lá também? Se sim, qual o título original pra que eu possa procurá-lo?
ResponderExcluirOI outro ....está lá tb...
ResponderExcluirhttp://youtu.be/hjEcIYV-ppQ. Carlos Drummond fala de Itabira... Obrigada pela leitura e pela postagem...leia "um outro" tb......
Achei o vídeo! Valeu! Voltarei aqui mais vezes pra ler seus outros posts com certeza. Bom feriado!
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