sábado, 17 de janeiro de 2015

O canto do sabiá


De repente, no meio da praça na República,
dos homens ditos livres, eis que, insólito,
ouve-se o canto de um sabiá.
Como se do nada surgisse,
ei - lo ali,
arfando o peito num canto que poderia ser livre,
não houvesse por sobre si
a gaiola de ferro e cimento do arranha-céu cinzento
que se ergue por sobre a árvore
onde ousa o sabiá de peito laranja cantar.
O trinado sem compromisso a título de brevidade,
transforma-se em mavioso canto,
aberto numa lacuna na loucura da cidade.
Encarapitado entre galhos
estranhamente decorados com sacos plásticos,
farrapos de roupas e restos de bandeira da parada gay,
aliás, laranja, lá está o sabiá, entre pardais a cantar.
O vendedor de cachorro quente parou
e com a faca no meio da salsicha ensimesmado,pensou:
Qual será o pássaro que está neste lugar a cantar?
O pedinte gargarejou, tentando localizar o dono do pio.
O homem louco que pensa que é guarda de trânsito,
guardou o seu assobio, até que alguém falou:
Olha um sabiá  laranjeira!
A criança, à mãe perguntou:
Mãe, onde é que está a laranja da árvore do sabiá?
O farol de um tempo só fechou
durante o tempo em que o sabiá cantou.
E ele cantou o tempo
em que o sabiá imperou,
na terra em que o homem a laranjeira do sabiá cortou.

Ivone Galdino, Setembro, 02 de 2004. O sabiá da Pça. da República.
É vedada a reprodução não autorizada.
Sabiá larajeira

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Nossos passeios
 
 
Pequena eu era e passeava São Paulo inteirinha,
Consolação, Augusta, Cardoso de Ameida,
Santo Antonio, Oscar Freire, Atibaia,
Zoológico, Ibirapuera.
Lanche na bolsa e la iamos nós
Casa Verde, Agua Branca, Perdizes,Tatuapé.
Malas prontas, farofa, frango assado e ,
sertão pra que te temos?
e da-lhe Morro do Chapéu, Iaçu
Senhor do Bonfim, Caitité,...
um mundéu de Deus
que se perdeu
em tanta aventura cigana.
Andamos tanto que um dia nos perdemos
em alguma estrada sem fim,
e nos encontramos novamente
num tempo que já estava findando.
Por sua mão conheci
muitos lugares, mas nenhum
se iguala a esse que se chama
eternidade.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A mulher que perdeu o dente...

A mulher que perdeu o dente...




Perder um dente na Rua 25 de março e encontra-lo, não é para qualquer um! Só seres privilegiados como ela conseguem.
Depois desse episódio passou a considerar-se uma pessoa de sorte, daquelas que algum dia ganharão na mega sena sozinha, e se não ganhou ainda é porque não jogou, claro! dessas que passaram a vida solteiras, até encontrarem um  gostosão, sem defeitos aparentes..., que não embarcaram no avião que caiu, casaram e foram felizes para sempre... 
Uma passadinha no Rafoul para uma coalhada seca, humm, umas esfilhazinhas dignas de Alá,  e umas iguarias de mil e uma noites. Prá fechar um docinho de goma arábica..Que tal?
Deparar com o dente colado no doce e uma terrivél sensação de que se está mastigando pedra.
Após o susto, o cuidado para não engolir a preciosidade, caso contrário, esperar pelo resultado óbvio da natureza das cousas, partindo da premissa que tudo que entra, de algum modo sai....Argh... Isso não!   
melhor voltar o caminho e procura-lo, nas calçadas esburacadas..Camelôs anunciando tapa orelhas, soutiã adesivo, bolsa Louis Vuitonn, primeira linha...
Meu dente, alguém viu meu dente? desnessário perguntar como era, visível da frente....Uma janela, um portal, uma porta balcão de tamanho descomunal...
Dificíl hein senhora! com tanto pé .....andando! Não pé pensando, pé comendo ! .....ridículo,  como alguém não pode respeitar a sua perda?  Começa a chuva, aquela que faz as pessoas correrem para lugar algum em busca de se esconderem, como se fosse possível ...Na 25 de Março?
Puxa o cachecol para proteger a cabeça, mas este atrapalha a visão reduzidissíma, então coloca as bordas para trás das orelhas...Uma muçulmana! Desdentada! meio de cocoras, meio de gatinhas, olhar fixo na lama que se forma, pés e pés, pensantes, falantes, engolindo cada metro de calçada imunda, poças d'agua, anúncio de ouro, pago bem a vista, casa das bonecas, plumas, paêtes, calvin klein, michael kors, le-se tarot e o DENTE! Meu dente, achei meu dente , segura a perna de homem, pé 44,  aproximado.. Não pisa no meu dente senhor! 
Um olhar surpreso, depois piedoso...Aquele espectro sem nenhuma vaidade, abaixo do nível de auto estima imaginavel para um verme, perde o equilíbrio e quase derruba o outro seguido de muitos outros, guarda chuvas e sacolas ...
Mergulha o dedo na poça e exibe incrivelmente feliz , seu dente, seu sorriso, sua pedra garimpada.
Já em pé, tres pulinhos para São Longuinho...       

terça-feira, 26 de junho de 2012

Os Cabelos de Vó

Os cabelos de vó eram tão compridos que batiam
lá nos tornozelos, embora baixinha ....
eram fininhos e prateados de todos os tons
Pentea-los era um ritual ...
Sentanda num pilão emborcado, soltava o coque anterior
e começava pondo toda a mecha na frente.
desembaraçava  com o  pente de prender...
imitação de  tartaruga....
Depois o jogava todinho para trás e aí,
quando a brisa soprava,
parecia véu de noiva....
Deixava que eu brincasse  com eles, - quando estava de bom humor-
(em geral não estava)
Pega a banha! - a latinha de manteiga aviação com banha de galinha caipira-
Seu creme favorito (e único).
Ensebava todo o rabicho, pra assentar os fios indomáveis.
As pernas abertas e a saia que ia até o pé, serviam de toucador
pente, banha, grampo, quando tinha...
A hora de fazer o coque!
Começava enrolando com os dedos indicadores e do meio...
Fininho e engrossando... até chegar no cocuruto...
Lá uma camada após a outra.
Seis camadas de fios enrolados,
o último fiapo no pente preso e
vó terminara...
Nunca a vi com outro tipo de penteado.
Suas roupas eram cozidas por ela mesma
na velha maquininha de manivela!
Nenhuma vaidade...
Tirando a fita de filha de Maria e o rosário sagrado das rezas.
Das seis, das doze horas, das seis da tarde....
A benção do Padre Donizete...o copo defronte ao rádio.
Cala-te boca! ninguém fala ou respira mais alto ...
Depois soltar o cabelo e dormir....
Acabara o dia!
Nunca vi vó sorrindo! Nunca ...Talvez por falta de dentes....
Mas acho que de tristeza mesmo!
Uma dó que  dava!
Aqueles olhinhos espremidos na  imensidão de rugas
talhadas com a mó do tempo..Triste!
Fitava o horizonte como se visse o nada!
Vó sentada, saia aberta ...posso brincar de balanço?
Respondia sem fitar...distante...Só um tiquinho....
Olhei dentro de seus olhos para tentar alcança-los
O que é esse branco nos seus olhos vó?
O véu da morte chegando. Arrepio. Já chega de balango.
Nos olhos entreabertos, aquela cor ...
O véu de Maria cobria Maria
(sustentado pelo trepadeirazinha de renda)
fita azul atravessada no peito e rosário nas mãos.
Abaixo do peito, dálias,  a flor favorita.
Um esgar ou quase um riso.
Rugas amenizadas.
O coque e o pente.
Não havia sequer um fio arrepiado...



domingo, 1 de maio de 2011

Adulto...

                                              VIDA DE ADULTO



Acordei de bom humor
                  mas não posso sorrir.
O chefe não quer
                 está mau humorado.

A conta chegou
não posso paga - la,
não tenho dinheiro.
            Juros sobre juros correm
        Inflexíveis...

Não suporto meu vizinho,
                                ele tem um cão barulhento
e inveja o meu jardim.
                     Cumprimento-o alegre
Tentando a política da boa falsidade...

Meus filhos na mesa do café
disputam o cereal.
Não façam assim...
                      Não os educo dessa forma...
Ou será que já estão devidamente deseducados?

A pilha de trabalho na mesa
me entristece,
se não vencê-la
                             não como!

O farol está fechado
estou atrasada para o compromisso.
Reuniões entediantes.... nada resolvem...

Se tomo banho
não durmo,
                 se não durmo
fico de mau humor.
Chuto a mesa.
                                 Xingo o chefe.
Brigo com o gerente
do banco de porta giratória
imbecil!
                           Mostro o dedo do meio
para o guarda de trânsito.
Mando o vizinho à merda
                                com crase.
Ponho as crianças
                  no castigo eterno,
para sempre  sem TV, mesada
Ou computador
Perco a hora...
Chego tarde ao trabalho
             Jogo todas as pastas verdes-nada
pela janela do setor e
           aos que me olham assustados
com aquele olhar inquiridor
eu respondo:
                                        Endoidei sim! E daí?


Vão encarar?

Ah!aH! Ahhhhh!