O canto do sabiá
De repente,
no meio da praça
na República,
dos homens
ditos livres,
eis que,
insólito,
ouve-se
o canto de um sabiá.
Como se do nada
surgisse,
ei - lo ali,
arfando o peito
num canto
que poderia
ser livre,
não houvesse
por sobre si
a gaiola de ferro e cimento
do arranha-céu
cinzento
que se ergue por sobre a árvore
onde ousa o sabiá
de peito laranja cantar.
O trinado sem compromisso
a título de brevidade,
transforma-se em mavioso canto,
aberto numa lacuna
na loucura da cidade.
Encarapitado
entre galhos
estranhamente decorados
com sacos plásticos,
farrapos de roupas e
restos de bandeira da parada gay,
aliás, laranja,
lá está o sabiá,
entre pardais a cantar.
O vendedor de cachorro quente
parou
e com a faca no meio da salsicha
ensimesmado,pensou:
Qual será o pássaro que está
neste lugar a cantar?
O pedinte gargarejou,
tentando localizar o dono do pio.
O homem louco
que pensa que é guarda de trânsito,
guardou o seu assobio,
até que alguém falou:
Olha um sabiá laranjeira!
A criança, à mãe perguntou:
Mãe, onde é que está
a laranja da árvore do sabiá?
O farol de um tempo só
fechou
durante o tempo em que o sabiá
cantou.
E ele cantou
o tempo
em que o sabiá imperou,
na terra em que o homem
a laranjeira do sabiá cortou.
Ivone Galdino, Setembro, 02 de 2004. O sabiá da Pça. da República.
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| Sabiá larajeira |

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