sábado, 17 de janeiro de 2015

O canto do sabiá


De repente, no meio da praça na República,
dos homens ditos livres, eis que, insólito,
ouve-se o canto de um sabiá.
Como se do nada surgisse,
ei - lo ali,
arfando o peito num canto que poderia ser livre,
não houvesse por sobre si
a gaiola de ferro e cimento do arranha-céu cinzento
que se ergue por sobre a árvore
onde ousa o sabiá de peito laranja cantar.
O trinado sem compromisso a título de brevidade,
transforma-se em mavioso canto,
aberto numa lacuna na loucura da cidade.
Encarapitado entre galhos
estranhamente decorados com sacos plásticos,
farrapos de roupas e restos de bandeira da parada gay,
aliás, laranja, lá está o sabiá, entre pardais a cantar.
O vendedor de cachorro quente parou
e com a faca no meio da salsicha ensimesmado,pensou:
Qual será o pássaro que está neste lugar a cantar?
O pedinte gargarejou, tentando localizar o dono do pio.
O homem louco que pensa que é guarda de trânsito,
guardou o seu assobio, até que alguém falou:
Olha um sabiá  laranjeira!
A criança, à mãe perguntou:
Mãe, onde é que está a laranja da árvore do sabiá?
O farol de um tempo só fechou
durante o tempo em que o sabiá cantou.
E ele cantou o tempo
em que o sabiá imperou,
na terra em que o homem a laranjeira do sabiá cortou.

Ivone Galdino, Setembro, 02 de 2004. O sabiá da Pça. da República.
É vedada a reprodução não autorizada.
Sabiá larajeira

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