terça-feira, 29 de março de 2011

COMIDA DE CÃO

                         Barriga cheia. de criança, nénem mesmo. estomâgo vazio de comida. Onze da noite e olho aberto de fome. a garoa lá fora, vem acompanhada de um vento de gelar a bunda, o nariz, a pontas dos dedos. a ameixeira balança seus braços e faz do canto do vento, um lamento.
Que fome do cão!  barriga de cinco meses. criança mexendo inquieta,  acha que de fome. levanta e procura algo para comer. bebe água com açúcar. dá uma amainada no bucho. agora durmo, pensa.
Mexe e remexe...água seca e agora tem de levantar para fazer xixi. sem banheiro,  sai para mijar no quintal. Garoa fina, barranco escorregadio, agacha, escorrega e fica no chão. bunda melecada de barro. Bosta de vida. Vida de cão!   
Prá que engravidar agora? sem emprego, sem marido, pagando faculdade, luz cortada, imposto atrasado, sem gás. Sem dinheiro para comer... Pensar em aborto, fora de cogitação. não podia perder a fé ....tudo haveria de se arranjar...pré natal?....falsificaria a carteira profissional, roupa pró nénem? Ia pedir mesmo, na cara dura! O alimento é que estava sendo difícil. passar fome dá uma sensação de não ser nada no mundo.
Sentir cheiro de comida e não tê-la é como ter fome e comida e não ter boca...
O pontapé da criança no ventre a fez levantar.
Suja e fria, a bunda. triste e esfaimada a alma. Desmaiada, a esperança.
Deus me ajude, implorou....! o vento soprou e trouxe mais garoa gelada.
Quisera ficar ali até morrer de fome e frio...
Cão, Demônio, Capeta, me ajuda...! desesperou!
Lhe prometo a minha alma...tão logo eu morra, (de parto)... pode vir me buscar.
Ouvira dizer que o  Demo era eficaz  nessas barganhas. Atendia de pronto!
Não se fazia de rogado não.
Atiçou a imaginação!
Prometo a alma do nénem também...se trouxeres agora, uns pratos quentinhos de comida...
Qualquer coisa, (menos bucho, dobradinha, e fígado acebolado), me satisfaz....
Preciso dormir, mas tenho fome.
Calma filhinho, mamãe está negociando um jantar!
Um medo de virar a cabeça e dar de cara com o Demo! Cartola preta, sorrisão maroto e pé de bode.....
Tá legal, vamos poupar o nénem...Só a minha alma tá de bom tamanho....
A garoa parou,  o vento aquietou-se, e um aroma de torresmo, couve refogada, ovo frito, feijão com pertences de feijoada, começou a exalar....Opa, o Demônio parecia ser bom cozinheiro...
Disposta a constatar o menú, fechou os olhos e esperou a aparição....
Nada ....só o aroma se propagando intensamente.   
Por favor Seu Demônio, não aguento mais......
A vizinha, cozinheira de mão cheia, preparava o jantar do filho que chegava altas horas da faculdade. 
Tudo fresquinho, pois não possuíam geladeira. Deixava no banho maria  e ia dormir... 
Ó meu Deus, não, não!!!  Odiava a auto comiseração mas chorou até cansar e gelar....
Nem o demônio queria negociatas...
Uma alma a mais, outra a menos....
Vou ficar aqui até o rapaz chegar, tomar coragem e pedir....um prato de comida por favor!  
Passava pouco da meia noite, quando cansada de esperar resolveu entrar,  antes de tornar-se um picolé grávido.
Nem Deus, nem Demônio, nem vizinho. tudo um engôdo.
De verdadeiro, só a sensação frustante de não ter sido atendida por nenhum delivery (celestial ou infernal) e a dor da fome!
Já ia escorregar e cair no lodo novamente quando o telefone da vizinha tocou....
De lá do quarto de dormir, ela grita para a filha na sala, assistindo TV.
Pega o jantar do seu irmão e põe lá fora prós cachorros...ele acabou de avisar que não virá . Vai dormir por lá....
A filha despeja numa folha de jornal todo aquele banquete e sai ao portão, depositando na calçada ....para algum cão faminto..e errante...
Os cães famintos e errantes não costumam se expor ao frio e ventos gelados. Eles se enrodilham em algum canto e ficam lá ....economizando energia.
Recolhe a comida, come no escuro, com a mão mesmo...Saboreia cada pedacinho de torresmo crocante, cada fiapo de couve ....O neném se acalma, pára de chutar.
O corpo esquenta e bate a vontade de dormir.
Para agradecer, na dúvida,  reza uma prece a Deus e outra ao Diabo!



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